sexta-feira, 20 de maio de 2011

Quem tem medo dos filhos?


Falar sobre o que fazer na educação das crianças em teoria é fácil e, para quem não tem filhos, soa até simples. Porém, só quando o status de pais surge na vida das pessoas é que elas percebem o quanto suas crenças podem falhar.
A Revista ouviu três mães, cada uma contando, respectivamente, suas estratégias para conseguir fazer seus filhos comerem bem, estudarem mais e como vencer uma birra. Depois disso, cruzamos as informações com as do livro Filhos: Manual de Instruições, da escritora Tania Zagury, para mostrar, de diversas formas, quais são os melhores caminhos para que seu anjinho mantenha a auréola.

1. Na hora das refeições
No mundo ideal das crianças, café da manhã tem refrigerante, almoço é pizza e o jantar pode ser um delicioso sanduíche com muito catchup. No mundo das mães, é o oposto. Conciliar essas visões díspares não é nada fácil. A tática da administradora Ana Lúcia Rufino de Souza Maranho, 42, mãe de Thiago, de 1 ano, e Matheus, de 5, é simples: em cada refeição, um dos itens do cardápio tem de estar entre os preferidos dos pequenos. “Procuro fazer o que eles adoram, mas sempre pondo no prato aqueles itens que eles não gostem muito, mas são saudáveis”, explica.

Por estudarem à tarde, o almoço sempre tem um horário fixo, o que estimula as crianças a saberem o momento certo de se alimentar. “Eles também jantam na escola, em hora certa, então criaram o hábito.” Uma refeição tradicional dos rapazes inclui frango grelhado, legumes cozidos, salada — “Esse é o mais difícil de todos”, garante Ana Lúcia —, arroz e feijão. “Tenho sorte porque o prato preferido do Matheus é fígado com quiabo frito. Mas não digo que seja fácil fazer com que eles comam bem. Mas é divertido”, resume.

Tania Zagury garante que a estratégia de misturar um pouco do que os filhos gostam com algo que é mais saudável é boa e deve ser mantida. Para a especialista, Ana Lúcia também acerta ao insistir que os meninos comam salada, mas que essa tática deve ser mantida por muito tempo, já que esses itens demoram para se tornarem queridos. “Continue, mas sem agredir ou permitir que o que eles comem ou deixam de comer seja motivo de chantagens ou barganhas”, completa. Um ponto que ela alerta em seu livro é: a casa não é restaurante e todos devem ter o mesmo cardápio. E, garante, quando as dificuldades surgirem, como em vários outros aspectos da educação infantil, o importante é ter pulso firme. E há algumas dicas:

- Aja como se não fizesse a menor diferença seu filho comer ou não (mesmo que seja difícil, mesmo que seja uma total inverdade);
- Nunca demonstre ansiedade com “o pouco que seu filho come”. Especialmente, não comente o assunto quando ele estiver presente ou puder ouvir;
- Criança sadia que não come bem é a que tem pais que acham que ela não come bem e se desesperam quando ela diz “Não quero comer”, alimentando assim um ciclo vicioso de ansiedade e luta de poder;
- Não confunda mãe dedicada com mãe insistente e “entupidora”;
- Não faça da refeição uma obrigação — lembre-se: come quem tem fome! (salvo exceções, como que sofre de problemas de saúde ou distúrbios alimentares).

2. Na hora dos estudos

Na casa da bióloga Janaína Farias, 38 anos, os filhos Ton, 16, Vitória, 14 e Áureo, 6, são estimulados a estudar sob a máxima do “Faça o que faço, não o que digo”. A mãe explica que se vale do exemplo dela para mostrar os filhos a importância da escola. “Sempre fui muito estudiosa e mostro, com o que conquisto, como é necessário ir bem nos estudos.” Claro, os conflitos acontecem e, por vezes, é preciso falar mais alto em vez de esperar apenas pela boa vontade.
Janaína diz que é nessas horas que sua técnica principal faz mais falta. A bióloga não acha certo ter que brigar com os filhos para conseguir fazê-los terminar a tarefa. Acha mais simples quando eles percebem, vendo-a sentada na mesa rodeada de livros, que aquela é a melhor ação. “Daí, se nem o exemplo ou falar alto der certo, parto para uma decisão mais drástica: corto a internet. Sem ela, todos eles começam a estudar.”
A escritora Tania Zagury garante que, realmente, gritar e se exaltar não vai fazer filho algum querer se dar bem nas provas. Conseguir criar um ritmo de estudos é um processo que leva anos e os pais não devem esmorecer jamais. “Seja firme, estabeleça horários e fiscalize a execução, mesmo que por telefone. Faça isso todos os dias.” Apesar da medida drástica de cortar a internet, Zagury explica que deixar os filhos livres para estudarem da forma como se sentem melhor estimula a independência e eleva a autoestima. “Os pais devem ficar focados nos resultados: as notas estão boas na escola? Então o método que eles escolheram está adequado.”
Em sua obra, ela explica que existem crianças que nascem com sede de aprender. Outras, precisam de empurrõezinhos de vez em quando. E ainda aquelas que precisam de empurrões bem grandes a cada dia. Ou seja: o sonho de que seu filho nasça com aquele desejo gigantesco de passar horas na mesa debruçado na matemática é ilusório. E, mais que isso, não traduz mais ou menos inteligência. O importante é ficar atento e seguir algumas dicas:
- Prestigie as tarefas escolares: não faça observações nem opine na frente da criança se achar que o trabalho proposto foi pouco ou excessivo. Se tem críticas às tarefas, vá à escola. Seu filho não pode perder a confiança nos professores;
- Habitue seu filho a ter local e horário adequado para estudar: em frente à tevê, na cozinha com a empregada ouvindo rádio, etc., a criança levará o dobro de tempo para concluir qualquer trabalho. E o fará, sem dúvidas, com mais erros;
- Incentive: crie o hábito de ler diariamente o caderno ou a agenda da escola. Veja o que a escola determinou — e confira se o seu filho cumpriu. Se ele fez tudo direitinho, não esqueça de elogiá-lo, beijá-lo e mostrar que está feliz com a atitude dele;
- Tenha paciência: aceite o ritmo de aprendizagem do seu filho. O importante é persistir até que a criança comece a ter o comportamento desejado.

3. Na hora da birra
Shopping lotado. De um lado, você com suas sacolas de compras, tentando pagar a conta rapidamente. Do outro, uma criança que parece ter entrado em choque. O desespero para conseguir algo que lhe foi negado é tanto que todos pensam: “Cadê a mãe dessa criança que não faz nada?” Quem tem filhos conhece essa situação. Crianças nascem sabendo que chorar garante cuidados dos seus pais, principalmente na hora da fome. Muitas crescem usando o mesmo artifício para garantir bem mais que alimento.
A enfermeira Andreia Ferreira da Silva Stacciarini, 38 anos, também criou seu mecanismo para vencer qualquer chilique das filhas. Sempre a uma distância segura, em que ela possa ver tudo o que acontece com as meninas, deixa aquela que chora sozinha e espera até o momento em que a criança percebe o quanto aquele ato é desnecessário: mamãe não vai fazer as vontades. “Tenho que tomar esse posicionamento firme, porque os filhos não podem dominar os pais e acho que elas aprendem melhor desse jeito.”

Ela acredita que isso é algo comum entre crianças pequenas e somente quando os pais não agem de forma rígida na tenra infância é que o problema continua entre os mais velhos. “O importante é ser incisiva e mostrar que aquela atitude não é boa”, completa. De acordo com Tania Zagury, esta é a melhor forma de lidar com a birra. “Com o tempo, a criança entende que berrar e espernear não resolvem nada. É preciso, porém, manter sempre o mesmo posicionamento”, explica. Quando isso não dá certo, Andreia senta a filha no colo e fala com ela para dar fim ao chilique. Zagury diz que isso não deve ser feito. “Se a criança não para, a mãe se desmoraliza e perde as estribeiras. Bom mesmo é esperar até que o filho se cale.”
A escritora também frisa: é preciso vencer o medo de que a criança fique com raiva dos pais. Para por fim neles, algumas dicas:

- Afaste mesas, cadeiras e objetos próximos, com os quais seu filho possa se machucar;
- Fale em tom normal, calma e pausadamente, mas firme: “Isso não é bonito, não está certo e não vai adiantar nada”;
- Faça isso apenas uma vez. Ele vai ouvir, mesmo que não pareça;
- Aja dessa forma na hora em que o chilique começa. Quando mais tempo a criança grita e esperneia, mais irritada e descontrolada ela fica;
- Fique impassível: apenas isso!

Fonte: Dicas foram adaptadas do livro Filhos: Manual de Instruções

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